ENTREVISTA COM ANGELA PHILIPPINI
Angela – Essa história começou em 1982, quando a casa foi inaugurada. A equipe que inaugurou a casa era composta por 5 pessoas que trabalhavam juntas. Nós fizemos um mestrado em Criatividade na UERJ e éramos todos funcionários municipais, funcionários públicos, bolsistas e, quando retornamos às instituições, fomos informados que não havia espaço para implantar as coisas que nós havíamos aprendido no mestrado e, aí, nós resolvemos criar um lugar onde pudéssemos aplicar aquilo que nós havíamos aprendido. Foi assim que surgiu a POMAR.
Andréa – Mas, inicialmente, a POMAR era uma clínica de Arteterapia?
Angela – Não. Nem se falava disso aqui no Brasil. Inicialmente era um espaço de criatividade, onde nós íamos tentar aplicar o que aprendemos nesse mestrado e nossa primeira população foi de idosos. O nosso evento de abertura foi enorme, reunimos pessoas de várias instituições geriátricas aqui no Rio, inclusive providenciando ônibus e deslocando essas pessoas para a Concha Acústica da UERJ, porque nós queríamos mostrar que essas pessoas, apesar de idosas e
residentes em lugares um pouco restritos, eram criativas, e foi assim que o nosso trabalho começou. Depois nós tivemos muitos grupos de pacientes psicóticos, alguns com patologias mais graves, com os quais nos trabalhávamos. Fazíamos acompanhamento terapêutico, levávamos à exposições, a museus, ao Jardim Botânico, etc., e, só mais tarde quando essa população começou
a mudar é que nós descobrimos a Arteterapia, depois de dois anos da Clínica já estava aberta, em 1984.
Andréa – E como foi? Porque até hoje em dia as pessoas, quando se fala de Arteterapia, às vezes não sabem nem do que se trata. Imagino em 1984, como deve ter sido...
Angela – É, era muito exótico. As pessoas achavam uma coisa muito estranha e, na realidade, não havia praticamente nada aqui no Brasil, mas nós conseguimos fortalecer, consolidar o trabalho através das redes que nós estabelecemos com instituições de outros países, principalmente na Inglaterra, onde há dois ótimos cursos: o Gold Smith College e o St. Albans. Nós mantivemos contato com as equipes formadoras dessas instituições e, a partir desse intercâmbio,conseguimos também validar algumas idéias e começar a organizar o nosso curso aqui.
Andréa – Você teve muitas dificuldades nessas coisas da Arteterapia, por causa dos preconceitos, das resistências que as pessoas apresentam?
Angela – Os preconceitos e as resistências eles permanecem até hoje. Não creio que eles tenham se modificado tanto. Hoje, em 2007, eu ainda vejo pessoas bastante preconceituosas em relação a essa metodologia. Mas, de verdade, eu nunca me importei com isso. Eu estava interessada em desenvolver um trabalho que eu acreditava que era muito transformador. Era um trabalho que me dava muito prazer e, realmente, se algumas pessoas falavam que isso era uma atividade
indevida para um psicólogo clínico, eu realmente não me importava nem um pouco.
Andréa – De onde vinha essa força, essa certeza, já que era um caminho relativamente novo?
Angela – Quando eu estava para entrar na faculdade, fiquei em dúvida se iria fazer Belas Artes ou ia fazer Psicologia. Depois acabei optando por Psicologia que na época era uma carreira relativamente nova aqui no Brasil. E, como, eu sempre gostei muito de arte, creio que o que me
fortalecia era o prazer pela atividade mesmo.
Andréa – Angela, eu queria que você falasse, ao longo desses anos todos, de alguma experiência que foi de grande aprendizado para você, que te ajudou a se desenvolver profissionalmente...
Angela – Bem, como eu havia contado, tudo começou por causa de um mestrado, bastante tradicional, digamos, uma experiência acadêmica muito árdua. Depois fui fazer outro mestrado, fora do Brasil, na cidade de Santiago de Compostela. Um outro mestrado de Criatividade, só que
organizado de uma forma completamente diferente e esse sim, foi uma experiência muito transformadora, me ajudou muito no meu trabalho. Uma outra experiência que também muito rica, foi participar de um curso intensivo para estrangeiros numa instituição que se chamava
INECAT, que fica em Paris e tem um trabalho muito bom. Eles organizam grupos de estrangeiros para ter um curso intensivo por 144 horas. São 12 horas durante 12 dias, é um mergulho muito interessante, foi uma experiência muito produtiva também.
Andréa – E o contato com as pessoas que passaram por essa casa deve ter sido um aprendizado. Queria que você tentasse lembrar, eu sei que são muitas pessoas, mas as histórias mais marcantes, as que mais te tocaram e que te permitiram desenvolver outros caminhos no seu trabalho.
Angela – É, por aqui passaram, ao longo desses anos, que agora já são 25 anos, pessoas muito criativas e muito talentosas e os trabalhos da equipe sempre foram muito produtivos. A equipe era sempre muito alegre, muito entusiasmada, mas há uma pessoa a quem eu devo muito
da consolidação do nosso trabalho, se chama Marco Antonio Carvalho Santos, hoje é um pesquisador da FIOCRUZ, e um musicoterapeuta, que trabalhou durante 15 anos na casa, uma pessoa que tinha uma preocupação muito grande com a produção científica. Foi ele quem nos
incentivou a fazer o 1º Congresso Brasileiro de Arteterapia e ao longo desses 15 anos ele cuidou para que o trabalho fosse consolidado de uma maneira bastante organizada, bastante estruturada, bastante séria e, eu creio que a permanência dele durantes esses anos na Clínica foi
indispensável para a Clínica fosse o que é agora.
Andréa – Eu queria que você falasse mais um pouquinho sobre as publicações e sobre você como autora também. Eu adoro o Cartografias da Coragem. Acho esse nome lindo também. Queria que você falasse um pouco disso.
Angela – As publicações surgiram dessa forma: pelo desafio do Marco e da necessidade de contar as histórias de coisas acontecidas, de experiências vividas, que funcionaram, que tiveram produtividade e que nós resolvemos compartilhar com outras pessoas. Quanto ao livro
Cartografias da Coragem, quando as histórias vão se acumulando dentro de nós, chega um momento que é preciso abrir as portas para elas saírem, para que possam chegar novas histórias. Foi assim que nasceu o livro Cartografias da Coragem.
Andréa – Hoje em dia você é mais psicóloga, se é possível, ou mais arteterapeuta?
Angela – Eu sou completamente mais arteterapeuta. Embora, dependendo do ângulo que se veja, eu posso ser uma psicóloga que trabalha através da arte, que viabiliza o seu trabalho terapêutico através da mediação da arte. Mas, na realidade, eu me sinto muito mais arteterapeuta e um pouco afastada das minhas origens de um psicólogo, clinico tradicional, que foi o início da minha carreira.
Andréa – Das pessoas que passaram por aqui, além do Marco, quais pessoas você acha que foram fundamentais para a POMAR ser o que ela é hoje?
Angela – Tivemos uma secretária que foi absolutamente incrível, que ficou 16 anos na casa, como você vê as pessoas têm permanências longas aqui... Ela ficou conosco até se aposentar, se chamava Zilda.
Andréa – Zilda... eu lembro dela.
Angela – E era uma pessoa muito interessante, que realmente vestiu a camisa da casa e compartilhou, assim, momentos alegres e momentos difíceis, uma pessoa de quem se pode dizer, que era de absoluta e total confiança.
Andréa – Você se sente cobrada na sua vida pessoal por ter essa posição de ascensão, ser uma grande mestra como é e desenvolver e trabalhar essa trilha do auto-conhecimento? As pessoas cobram isso, assim, como tem que ser meio... “invacilável”...
Angela – Eu creio que toda opção existencial tem ônus e bônus e, certamente, ser gestora de uma instituição tantos anos tem muitas implicações que acabam transbordando também na vida pessoal. Mas eu creio que os bônus, com certeza, são maiores que os ônus, se não eu não ficaria tanto tempo fazendo isso.
Andréa – Eu queria que você contasse algum caso clínico onde há Arteterapia... você colheu resultados muito legais, tem algum que você se lembre agora?
Angela – Bem, como você sabe, nós aqui na casa somos junguianos e os junguianos gostam muito de histórias e eu me lembro que há uns anos atrás eu tive uma cliente, que era uma menina, pequena, uma menina de 6 anos, que era cega, e, trabalhar com o cego em Arteterapia
pode oferecer, num primeiro momento, muitas dificuldades, e nós íamos construindo juntas essas possibilidades de trabalho e as histórias me ajudaram muito a construir essa ponte e criar um espaço prazeroso de convivência, um espaço de desenvolvimento que nos ajudasse nos
processos de transformação que ela precisava viver. E, eu me recordo que fomos uma vez passear no Jardim Zoológico e, nos orientando pelos cheiros das coisas e, à medida que chegávamos perto das habitações dos animais, eu ia contando para ela, da maneira que me ocorria naquele momento, histórias possíveis daqueles habitantes, mas
enfatizando a questão do cheiro. E aí, chegamos num lugar onde habitava o camelo e, realmente, a habitação do camelo tinha um cheiro horroroso, e ela ficou muito encantada com aquele cheiro, porque foi a coisa que mais lhe chamou atenção de tudo que se havia visitado. Era um cheiro inesquecível. Quando nós retornamos à clínica, nas sessões subseqüentes, nas outras semanas, permanecera na memória o cheiro do camelo. Então, esse camelo foi batizado de Camelo Camilo e resultou em uma série histórias, que eram incríveis para nós duas e nós nos divertíamos, assim, muito, porque através de um universo sensorial e de sonoridades, Camelo Camilo nos ajuda a recordar, contamos muitas histórias, de desertos e ventos e cheiros, e o Camelo Camilo era
andarilho e fazia muitas coisas e ia a muitos lugares e eu ia aproveitando e ia contando para ela coisas que não via, através dos olhos do Camelo Camilo e, realmente, é uma história, assim, que me traz uma lembrança muito amena das possibilidades de transformação da arte, mesmo em circunstâncias mais limitadoras, como era o caso.
Andréa – Quais são as maiores dificuldades que você acha no caminho arteterapêutico a Clínica?
Angela – O lugar que a arte ocupa na nossa cultura. As pessoas chegam muito bloqueadas em seu processo criativo. O fato de estarmos inseridos num sistema capitalista, faz com que se trabalhe muito para induzir as pessoas a não fazerem nada de forma artesanal, pois sendo impotentes com as suas mãos, tendem a querer comprar tudo pronto. Então, esta situação oferece uma dificuldade operacional, mas depois quando se restaura a autonomia criativa das pessoas, isso pertence ao passado.
Andréa – Eu acho muito interessante aquelas frases iniciais do processo, quando as pessoas estão fazendo curso de formação, que elas começam a dizer: “ah, eu não sei, eu não desenho, eu não posso”, e depois se surpreendem com os resultados. Eu queria que você falasse um pouquinho disso.
Angela – É, talvez a frase mais surpreendente para mim seja aquela que muitas pessoas dizem em muitas circunstâncias e em muitos lugares diferentes que é: “eu não sei fazer nada com as mãos.” Eu acho isso absolutamente surpreendente, porque as pessoas que acabam de dizer essa frase, e, provavelmente, chegam dirigindo seus carros, elas escrevem, assinam seus cheques, abrem e fecham zíper, abotoam e desabotoam suas roupas, dão laços... Então, se elas sabem fazer coisas com as mãos, essas mesmas habilidades, dessas atividades cotidianas, são compatíveis com o trabalho artístico. É como se houvesse uma cisão dentro do imaginário dessas pessoas: algumas
pessoas sabem fazer coisas com as mãos e outras não sabem, não se dão conta, por exemplo, de que quem escreve, desenha. A escrita é um desenho, não é? Mas existe essa cisão. Eu acho que uma das tarefas do arteterapeuta é restaurar essa separação e trabalhar, no imaginário dessas pessoas, que elas podem, que elas são criativas e que elas sabem fazer coisas com as mãos.
Andréa – Auxiliando esse processo de descobertas, como é que você faz para segurar a emoção? Sei que são muitos de anos de treino, mas, às vezes..., eu acho que deve ser difícil...
Angela – Eu creio que não seguro não, pois se for emocionante, pois que seja!
Andréa – Eu queria que você falasse um pouco dos contos e dos mitos em Arteterapia.
Angela – Bom, uma abordagem teórica que sustenta esse trabalho, a formação é a abordagem da Psicologia Analítica, essa moldura teórica é junguiana, nos mitos e nos contos ela tem uma importância fundamental e aqui, na POMAR, desenvolvemos um trabalho peculiar,
em relação aos contos que é realmente mergulhar no universo simbólico, organizando oficinas, criando vivências específicas e, permitindo, não só aos alunos que estão em treinamento, mas também aos nossos convidados, aos amigos da casa, que de vez em quando possam entrar no universo da história e interativamente possam participar dessas narrativas. Eu creio que isso é um presente anímico para as pessoas, para quem vem e para nós que proporcionamos essa
experiência.
Andréa – E acontece de algumas dessas oficinas de fadas das quais se lembre, uma que tenha se destacado pela originalidade ou pelo tema abordado?
Angela – Tivemos uma história, Pele de Asno, contada já muitas vezes, aqui na casa, de muitas maneiras. Certa vez houve um grupo que pediu ajuda a um diretor de teatro, embora o nosso propósito não seja esse, quiseram fazer dessa forma e encontraram, assim, metáforas muito
belas para contar a história de Pele de Asno. Foi muito emocionante ver o processo. O desenvolvimento criativo que puderam alcançar, mesmo não sendo um grupo de atores, apresentaram como uma forma original desse processo criativo.
Andréa – Esse descompromisso, até por não ser um grupo de atores, faz com que as pessoas se soltem e seus talentos fluam.
Angela – É verdade. Por não saberem das regras, eles inventam outras e funciona muito bem (risos).
Andréa – Outra coisa que eu acho fantástico é o cenário. É tudo assim, como um processo criativo completo, não é? Porque a salinha se transforma com mil cores e caras diferentes!
Angela –É, e agora nós estamos desenvolvendo uma linha de pesquisa que está nos dando muito prazer e já está no nosso banco de dados com 3 DVDs, montados sobre o assunto. São as relações da Arteterapia com o teatro de animação, que começou por acaso, com pequenas experiências de criação de pequenos personagens, mas, quando eles começaram a se animar, a ficarem vivos, nós vimos como isso era uma trilha criativa muito potente. E passamos assim a deliberadamente
pesquisar e temos pesquisado isso com as nossas turmas de pósgraduação e os resultados têm sido muito interessante.
Andréa – Voltando às publicações, Angela, como é o seu critério de seleção. Como é que você resolve? Você é a editora... como funciona? Queria que você falasse...
Angela – Eu acho uma pergunta muito interessante. De vez em quando nós recebemos uma crítica, às vezes mais ácida, às vezes, bem mais humorada, que nós não somos uma revista científica convencional e nós não somos mesmo, não queremos ser, porque o nosso critério é abrir
um espaço onde as pessoas possam contar as suas histórias da maneira que resolveram contar. Então, a nossa revista acolhe depoimentos pessoais, ensaios, artigos feitos com o modelo acadêmico específicos, conforme as normas da ABNT; mas acolhe também poesias e textos
relacionados às pessoas que querem contar como viveram determinadas experiências no processo arteterapêutico. É esse o nosso critério. E assim, consolidamos um fórum democrático, onde as pessoas possam discutir as relações entre arte e saúde, sem nos deixar limitar por
determinadas injunções de natureza acadêmica.
Andréa – Acho que isso deve ser de uma liberdade total, não é?
Angela – É a vantagem de se editar a revista (risos).
Andréa – Quais são as coisas mais animadoras e as mais difíceis de combater no dia-a-dia? Porque o aluguel é caro, as pessoas dizem: “ah, eu não tenho dinheiro”, mas querem terapia, querem conhecer o espaço. Como administrar isso, sendo uma mulher? Perguntando de uma forma mais objetiva: Como é que é ser isso: uma administradora de um negócio e ser uma terapeuta e com as demandas que as pessoas fazem a esse respeito?
Angela – Bem, já que falamos de criatividade desde o começo, talvez com um pouco de criatividade possa ajudar. Procuramos não priorizar o aspecto financeiro, eu creio que o que permite a subsistência da casa, ao longo de 25 anos, não é simples manter uma instituição de arte e saúde aberta por todo esse tempo, ao longo de todos os planos econômicos e as mudanças históricas, etc., que acontecem no país... São as alianças e as redes. Existe uma trama, uma urdidura entre pessoas, que em determinados momentos se interessam por esse determinado tempo e vão passando pela casa, e vão contribuindo com sua energia vital... Eu creio que isso é que sustenta a casa. Depois outras pessoas chegam, as pessoas que chegaram anteriormente se vão para outros caminhos... há uma renovação. É como as marés que vêm e que voltam e, sobretudo, o que sustenta, o que segura, o que fortalece é o processo criativo de muitas pessoas reunidas em torno de um objetivo comum.
Andréa – Agora eu queria que você falasse alguma coisa para as pessoas que se interessam por essa profissão. Os arteterapeutas, os de formação, os que estão iniciando...
Angela – Bem, eu considero a Arteterapia um ofício fascinante, colorido, mutante e transformador e acredito, realmente, que a arte desperta a vida.
Andréa – Obrigada!





